Participar da 5ª edição do Fórum de Economia Circular & Competitividade provocou reflexões sobre o momento atual da agenda ASG (Ambiental, Social e Governança, adoto a sigla em português por entender que nossa língua oferece correspondência adequada ao termo, sem necessidade de recorrermos ao estrangeirismo ESG). Ao longo dos debates, ficou evidente que a transição para modelos sustentáveis não é apenas uma exigência regulatória nem uma pauta reputacional, mas um imperativo estratégico de sobrevivência e competitividade no mercado. Se observamos com atenção, o evento evidenciou que os três pilares da agenda ASG amadureceram:
1. O Ambiental como diferencial
Embora essa reflexão tenha surgido a partir dos debates do segundo dia do evento, inicio por ela porque traduz com maior clareza o eixo ambiental da Agenda ASG. Demonstra, de forma indissociável, a conexão entre os pilares do “A” e o “G”. Isso porque cumprir a legislação e atender aos marcos regulatórios (sejam eles locais ou internacionais) é apenas o ponto de partida, e não a linha de chegada.
Um exemplo marcante trazido nas discussões ilustra bem essa dinâmica: o uso de plástico reciclado disparou recentemente não por um sobressalto repentino de consciência ecológica corporativa, mas porque a instabilidade geopolítica e as guerras travaram o fornecimento de matérias-primas virgens. A tecnologia e a viabilidade técnica já existiam; o que faltava era a dor da escassez ou a mudança na matriz de incentivos e custos.
Essa constatação revela uma verdade incômoda: reduzir a logística reversa, a economia circular e a sustentabilidade ao mero cumprimento de leis é uma miopia estratégica.
2. O Social além da filantropia
Logo na abertura do evento, minhas reflexões foram para a fala da economista e ex-ministra Dra. Dorothea Werneck, que na Palestra Magna, com o exemplo prático das transformações de uma montadora de veículos de Minas Gerais, ilustrou como a valorização do ambiente de trabalho transformou a mentalidade das pessoas que trabalhavam na empresa e como essa nova cultura transbordou para fora dos muros da empresa, mobilizando comunidades para transformar suas realidades, tudo a partir de um treinamento dado aos colaboradores.
Dentre as diversas ideias apresentadas durante a Palestra Magna, uma delas merece especial destaque: a diferenciação entre os conceitos de “funcionário” para “colaborador”, pois para uma gestão moderna, não cabe mais pensar nas pessoas somente como mão de obra restrita à obediência, mas sim na construção de um ecossistema onde o colaborador protagoniza a relação, compartilhando conhecimento e um agir solidário em prol do propósito comum.
Essa mudança de paradigma, de funcionário para colaborador, reflete diretamente na forma como a empresa se posiciona diante da sua responsabilidade social. Na prática, percebemos que o foco deixou de ser a mitigação de problemas pontuais externos, como a oferta de auxílios desvinculados da operação, para se tornar um modelo de desenvolvimento humano e econômico integrado. O exemplo prático da montadora apresentado durante a palestra, ao investir em treinamento, organização e na valorização do ambiente, a empresa não apenas eleva sua produtividade, mas empodera o indivíduo.
Como resultado, o que antes era uma relação de dependência administrativa dá lugar a uma evolução: as pessoas, agora colaboradoras, valorizadas e capacitadas, possuindo novas competências técnicas, elevam sua renda e sua qualidade de vida, tornando protagonistas da transformação em suas próprias casas e cidades. É a prova de que a verdadeira sustentabilidade de uma empresa, no tocante ao social, não é um pilar que se sustenta por ações isoladas de marketing, mas pela construção real de valor através do incentivo e desenvolvimento contínuo das pessoas.
3. A Governança além do cumprimento de regras
Tratar desafios ambientais e sociais exige uma mudança profunda de cultura e uma gestão de riscos robusta. Práticas socioambientais não podem funcionar como um departamento isolado ou um “puxadinho” burocrático do jurídico ou do marketing. Elas precisam orientar a tomada de decisão no topo da gestão e na estratégia de longo prazo do negócio.
Além disso, soluções para gargalos complexos, desde o redesenho da logística de entrada e saída até arranjos inovadores de governança local e logística reversa (como vimos nos casos práticos de cooperação em ecossistemas locais), demonstram que temas complexos não se solucionam com respostas simples. Os desafios contemporâneos exigem integração real entre empresas, poder público, academia e sociedade civil. Somente por meio do diálogo, da cooperação territorial e de uma governança intergeracional de riscos será possível construir soluções capazes de responder às urgências do presente sem comprometer as bases do futuro.
Em última análise, os debates vividos ao longo desses dias nos lembram que a transição para uma economia verdadeiramente circular e regenerativa é, antes de tudo, uma escolha de liderança e cultura. Ela demanda que os profissionais do direito, da economia, da gestão e da academia ultrapassem as fronteiras tradicionais de suas áreas de atuação. O desafio agora é transformar esses aprendizados para a prática diária dos nossos negócios e pesquisas, compreendendo que cuidar do amanhã é uma responsabilidade intransferível que começa nas decisões que tomamos hoje.
Para ilustrar alguns dos destaques do evento, deixei aqui também os registros — incluindo a nossa selfie e os trabalhos apresentados pelas colegas da Feevale.





Fontes:
BITENCOURT, Gilmar. [Fotografia do 5º Fórum de Economia Circular & Competitividade]. 2026. Fotografia mesa de autógrafos.
FÓRUM DE ECONOMIA CIRCULAR & COMPETITIVIDADE, 5. [Dia 1]. 2026. Transmissão de vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9s6CWXOxcmQ.
FÓRUM DE ECONOMIA CIRCULAR & COMPETITIVIDADE, 5. [Dia 2]. 2026. Transmissão de vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_Zsxc2x53Ck.
FÓRUM DE ECONOMIA CIRCULAR & COMPETITIVIDADE, 5. Porto Alegre: Sympla, 2026. Disponível em: https://www.sympla.com.br/evento/5-forum-de-economia-circular-e-competitividade/3410717.
WASEM, Ingrid. [Fotografias do 5º Fórum de Economia Circular & Competitividade]. 2026. Fotografias de arquivo pessoal.
Para quem desejar aprofundar as reflexões apresentadas neste artigo, recomendo assistir à Palestra Magna de Dorothea Werneck, especialmente ao trecho compreendido entre 57min51s e 1h06min32s, no qual são discutidas as transformações culturais promovidas pela valorização das pessoas nas organizações. O vídeo está disponível em: [link].

